Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

EUROPA JÁ!



No momento em que a Europa está ameaçada de colapso, as vozes da indignação fazem-se ouvir um pouco por toda a União, essencialmente dirigidas contra entidades algo abstractas — o capitalismo mundial —, ou contra entidades igualmente abstractas, embora aparentemente mais concretas: os fracos líderes europeus da actualidade. Seria naturalmente de esperar que, sendo os líderes europeus fracos, se evidenciassem em cada país, por oposição, líderes nacionais fortes, mormente entre aqueles que mais se agitam contra o actual estado de coisas. Quando falamos em líderes, falamos não apenas dos lideres políticos tradicionais, mas também dos líderes de movimentos sindicais e sociais, dos líderes de opinião e ainda daqueles que, numa perspectiva crítica da situação, mobilizam as massas para exprimir a sua indignação. Demonstrarão, pois, os nossos líderes nacionais uma capacidade de visão mais ampla e fundada do que a daqueles que são o alvo preferencial das nossas críticas, e a quem atribuímos, indignadamente, as culpas pela situação que nos vemos forçados a enfrentar?  Diria que sim, se alguma voz se ouvisse, neste momento crítico da União, apelando aos povos para uma grande mobilização na defesa intransigente da utopia europeia e do seu aprofundamento urgente. Diria que sim, se visse os nossos líderes alertando para a catástrofe social e política que representaria o fim do projecto europeu. Diria que sim, se os visse pugnar pelo aprofundamento político da União como um desígnio nacional, expulsando o fantasma da perda de soberania em nome de um projecto europeu que transcende o espírito de relicário dos nacionalismos serôdios. Diria que sim, se os visse contribuir para aprofundar a consciência dos povos de que os problemas que vivemos são transnacionais, e só podem resolver-se, ou minorar-se, na esfera de uma integração e harmonização efectiva, não apenas económica mas, sobretudo, política, no espaço europeu. Infelizmente, creio que visão dos nossos líderes se estende apenas até onde a sua vista alcança: até às esquecidas fronteiras de cada país, dentro das quais os descontentamentos lhes renderão dividendos, no imediato eleitoral ou na correlação de forças conjuntural. Estes políticos colherão os tristes louros da emergência tácita do nacionalismo deste século. Mas, à falta de líderes que os mobilizem, não seria este o momento de os cidadãos da Europa tomarem nas mãos a responsabilidade do seu destino, saindo à rua para reclamar, com indignação e esperança, o seu futuro europeu comum? Não seria este o momento de vir para a rua reclamar o aprofundamento do projecto europeu, que se encontra sequestrado pelo bairrismo do debate político e social? Não seria este o momento de sair à  rua para reclamar uma Europa mais justa, mais solidária e mais coesa, como a única utopia que projecta para o futuro um espaço de prosperidade, solidariedade e paz entre os povos europeus? A Europa é a nossa verdadeira utopia colectiva, a única que sabemos poder cumprir-se, a única que podemos deixar como legado às próximas gerações. Neste momento, clamar contra os inimigos de sempre, contra esse capitalismo que, paradoxalmente, nos garantiu o nível de vida que agora desesperamos por ver perdido, parece-me compreensível, mas inútil. A nossa grande responsabilidade colectiva, neste momento, não me parece que seja a de mudar o Mundo, mas o de construir a Europa que está por cumprir. Se o conseguirmos, o Mundo mudará. Se falharmos esse desígnio, já pouco teremos para dar ao Mundo nas décadas vindouras. Por isso, neste momento, a única palavra-de-ordem que me ocorre é esta: Europa já!


André Gago
11/11/11

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