Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

ONTEM AO FIM DA TARDE




Ontem ao fim da tarde
deambulando no Rossio
mergulhado nas minhas
preocupações financeiras
deste fim de Era próspera
vi um homem morto estendido no chão
o corpo coberto
fitas de polícia demarcavam o espaço
mas não o escondiam da multidão
o meu coração desatou aos pulos
inconformado com aquela morte
anónima e tão presente
estampada na calçada
quem era não sei
porquê então
tanto estupor
tanta comoção
dei-me conta
que nunca tinha visto
um morto na plena rua
um morto em público
no espaço público
na cidade onde afinal
se vive e se morre
todos os dias
mortos foram sempre íntimos
em resguardo secreto
de dores íntimas
dos que nos deixam a nós
talvez aquele corpo
nos tenha deixado a todos
porque a sua morte
foi afinal pública
seria bonito pensar assim
se não fosse mentira
à noite ao jantar
comi cavalas
que os pescadores
me fizeram de oferenda
vi-as morrer
noutro fim-de-tarde
espadejar nas redes
agonizar lentamente
até poderem oferecer-se
num saco de plástico
ao transeunte da praia
que era eu
as primeiras
frescas
não as comi com gosto
o seu massacre
assombrava-me
descongeladas
já consigo saboreá-las
arredada de nós anda a morte
nesta porção de mundo civilizado
há muito que as nossas ruas
não se juncam de corpos
e há muito que matar
é tarefa oculta aos nossos olhos
por isso comemos
sem remorso
por isso não contamos
com a morte dos bichos
com a morte dos outros
esses quantos vivem
perante nós
publicamente alheios
ao singular da chusma
e por isso para nós
a morte dos outros não conta
nem temos conta para a contar:
um ou cem mil
essa abstracção
essa coisa silenciosa
nada nos diz
afinal
é sempre a sós que choramos
e mesmo em público
é a sós que morremos
com tudo o que amamos
como todos os que amamos
é a sós que morremos.

André Gago
16 Novembro 2011

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