deambulando no Rossio
mergulhado nas minhas
preocupações financeiras
deste fim de Era próspera
vi um homem morto estendido no chão
o corpo coberto
fitas de polícia demarcavam o espaço
mas não o escondiam da multidão
o meu coração desatou aos pulos
inconformado com aquela morte
anónima e tão presente
estampada na calçada
quem era não sei
porquê então
tanto estupor
tanta comoção
dei-me conta
que nunca tinha visto
um morto na plena rua
um morto em público
no espaço público
na cidade onde afinal
se vive e se morre
todos os dias
mortos foram sempre íntimos
em resguardo secreto
de dores íntimas
dos que nos deixam a nós
talvez aquele corpo
nos tenha deixado a todos
porque a sua morte
foi afinal pública
seria bonito pensar assim
se não fosse mentira
à noite ao jantar
comi cavalas
que os pescadores
me fizeram de oferenda
vi-as morrer
noutro fim-de-tarde
espadejar nas redes
agonizar lentamente
até poderem oferecer-se
num saco de plástico
ao transeunte da praia
que era eu
as primeiras
frescas
não as comi com gosto
o seu massacre
assombrava-me
descongeladas
já consigo saboreá-las
arredada de nós anda a morte
nesta porção de mundo civilizado
há muito que as nossas ruas
não se juncam de corpos
e há muito que matar
é tarefa oculta aos nossos olhos
por isso comemos
sem remorso
por isso não contamos
com a morte dos bichos
com a morte dos outros
esses quantos vivem
perante nós
publicamente alheios
ao singular da chusma
e por isso para nós
a morte dos outros não conta
nem temos conta para a contar:
um ou cem mil
essa abstracção
essa coisa silenciosa
nada nos diz
afinal
é sempre a sós que choramos
e mesmo em público
é a sós que morremos
com tudo o que amamos
como todos os que amamos
é a sós que morremos.
André Gago
16 Novembro 2011
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