Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

BEAT HOTEL: IN PROGRESS



Com o título provisório de “Beat Hotel”, preparo-me para regressar ao palco da poesia levando ao público autores hoje em dia tão pouco praticados entre nós como Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg, Gregory Corso ou William S. Burroughs.

Há alguns meses descobri a poesia de Ferlinghetti, numa tradução de José Palla e Carmo — aliás José Sesinando (durante anos comprei o Jornal de Letras apenas para ler os seus Escrituralismos, e interpretei muitos dos seus textos em vários espectáculos). Entusiasmou-me imediatamente a ideia de dizer em público aqueles poemas, cheios de uma tão quotidiana e surreal vitalidade. Entretanto, achei que era uma pena restringir um recital, por assim lhe chamar, a apenas um autor. Estes poetas, além do que representam e partilharam, são para mim o exemplo de uma poesia com certo sentido da urgência de interpelação da vida e dos acontecimentos. Numa época conturbada como a que vivemos hoje, os artistas tardam em conseguir interpelar de forma tão viva e crítica o seu tempo, e acredito que estes autores mantém intacto o estimulante poder de nos despertar para outras possibilidades do real.

É não exactamente um projecto teatral, mas um modo aberto de abordar, e eu próprio conhecer melhor, estes autores, à medida que os partilho com o público. Penso neste projecto como num objecto mutante, não apenas na multiplicidade das suas formas de apresentação possível como nas colaborações que ele permita ir estabelecendo. Penso em bares, por exemplo, onde posso ir sem me preocupar com a bagagem, lugares onde o público já está e estas palavras podem fazer falta, mas não descarto auditórios de toda a espécie. Gostava também de imaginar que, num lugar qualquer, haja um músico ou uma banda com quem seja engraçado partilhar o palco com estes textos e poemas (claro que é essencialmente em jazz e em rock que estou a pensar, mas nunca se sabe).

Depois de um ano difícil, em que neste país de marinheiros o teatro livre se afundou, acabei por suspender outros projectos do Teatro Instável, como A Flor do Lácio, cujos ensaios tinham já começado, e reservá-los para um momento mais oportuno. O encerramento do Espaço Instável em Julho passado foi o culminar de uma temporada ao longo da qual o Teatro Instável apenas conseguiu colocar um único (!) espectáculo. Isto tinha de ter consequências, e os últimos meses foram para pensar. Este projecto, ainda sem datas marcadas, foi a forma que encontrei para regressar à arena de uma forma que dispensa as energias gastas com esquemas complicados de produção e da qual espero retirar, apenas, o prazer de me sentir bem acompanhado, entre autores, artistas e público. O que não é pouco.


André Gago
Janeiro de 2012

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